Respiro Fundo

Respiro fundo! Olho ao espelho. Inspiro. Tenho medo.

Respiro Fundo

Quando me propus fazer o blogue pensei que raio de montra seria esta onde me queria mostrar, onde queria dizer o que faço da minha vida, onde ia ficar assim como estou. Com medo.

Então parei e respirei bem fundo, até ficar sem ar, até ficar sem chão. Cheia de medo, olhei para mim, tal qual sou, assim como eu me vejo. E como me veem os outros. Como será que me imagina quem tem imaginação? Como me inveja quem me tem inveja? Como me despreza quem me tem desprezo? Ou melhor, como me ama quem me ama, como me detesta quem me odeia. Eu não odeio, não consigo, relevo, desculpo, prefiro esquecer, perdoar até.

Respiro fundo. Às vezes não tenho medo.

Eu sou de paixões! Muitas paixões. Apaixono-me por homens e mulheres, por animais, flores e objectos e dedico-me, mas não sou fiel, sou de todos um pouco e, por vezes, não sou de ninguém. E amo, claro, mas amo a poucos e a esses, a quem amo, não troco por nada deste mundo.

Quanto a mim, tenho uma boa dose de amor próprio que cultivo com dedicação e encanto, que me dá frutos doces e maduros com que me delicio num prazer infindável. E sofro, sofro também de narcisismo que me escapa ao controle e à qual não resisto. E lembro-me de Caetano, uma das minhas paixões, e lembro-me também quando o ouvi pela primeira vez, não entendia nada do que havia à minha volta. E aí nunca tive medo.

Caetano, eu era menina, tu eras homem (tão menino como eu!). Fazias-me sonhar e eras tão belo, tão preto, cheio daquele sol imenso, que é o sol da terra da felicidade. E os teus cabelos eram o meu mar.

Dizem que cresci, duvida. Não sei sequer quem bem sou. Mas esforço-me para que acreditem, às vezes. Como tu, sou o oposto da certeza e caminho na fé dos homens, que se julgam deuses, que nada são. Também eu me julgo. Bela. Eterna. Espelho de uma força que me leva quando tudo o que quero … sei lá o que quero. Mentira.

A verdade é a ilusão da tua voz ao meu ouvido que diz “ Você é linda, mais que demais!” e eu acredito. E não piro.

Respiro fundo.

Respirar Fundo

Eu tenho mil e um planos. Tenho capas de lombada larga cheias de passado e pastas transparentes etiquetadas de futuro. Tenho pequenos cadernos vermelhos, pretos, lisos, escritos, com linhas, em branco. Tenho lápis de carvão de bico fino e grosso, borrachas que não deixam marcas e canetas de tinta de todas as cores. Eu necessito planear. De achar que controlo tudo. De ter horas marcadas, dias previstos. Antes de tudo.

Eu sei, depois, que não uso relógio, sequer olho o calendário. Que não me controlo nem a mim. E que, no meio de tantos planos, nada farei senão o que me der vontade. Agora. Respiro fundo. Sem medo.

Quando se decide algo que sai fora do expectável, do redondo, do certo, do igual, do mesmo, a tendência dos outros, próximos ou distantes, íntimos ou circunstanciais, é questionar colocando obstáculos, quimeras, juízos.

Vejamos …

como é que vais? És louca e se te afogas? E se enjoares? E se te sentires só? E se tiveres medo? Com que dinheiro? E os teus filhos? Vais deixa-los? E o trabalho? Vais deitar tudo a perder? E se te matam? E se te roubam? E se te perdes? E se te desiludes? E se te arrependes? E se te engasgas? E se adoeces? E se tiveres saudade? E se não gostares da comida? E se chover? E se fizer muito calor? E se a Dilma voltar? Ou pior, o Temer ficar? E se o Jô emagrecer? E se … E se … E se …

E por ai vai … os Se’s são senhores absolutos de certezas inabaláveis precedidas de um fatalismo ignorante e medroso que se encerra na rua de cada um, dentro de portas, seguros, com as suas verdades e as suas (sobre)vivências. E eu respiro fundo. Assim, muito fundo. Ah, que se dane!

medo.tumblr

Eu tenho medo. Claro. Tenho tanto medo de gostar, de gostar muito, de me seduzir, de me viciar, de morrer de amor por esta partida que não tem volta marcada. Porque, depois, mesmo quando chegar, tenho de chegar, outra vez, tudo o que conseguirei pensar será em partir, tenho de partir, de novo. E, entretanto, respiro fundo.

O Gabriel Pensador, poeta moderno, filosofo de canções, escreveu estes versos. Estes são uma pequena parte de um todo, que representa uma nação de homens, que nos representa.

Quando os ouvi pela primeira vez fiquei sem chão, de tanto incomodo que me causaram, incomodo bom, incomodo de mudança.

“Até quando?”

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!

Sem medo.

mh

About the author: Viagens da Helena

"Eu sou a Helena. Tenho quarenta anos (+ 2), sou Leão, nascida e criada no Porto. Sou tripeira de gema! Mãe de dois filhos, o Francisco e o António. Sou uma filha presente e uma irmã mais ausente do que gostaria. Sou amiga de todos os que me chegam, mas conto pelos dedos os que guardo para a vida."

Leave a Reply

Your email address will not be published.