Mudar de Vida

Sou do Porto, carago!

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Ah carago, sou tripeira sim senhor!!!! E apesar de viver cá em baixo há mais de 20 anos, ter Cascais entranhado no meu coração para todo o sempre e cada vez mais amar Lisboa de paixão, o meu coração há de ser sempre tripeiro!!
E enganem-se quem acha que chamar-nos tripeiros é uma ofensa! É um orgulho! Uma coisa que não se explica, sente-se! Tal como os alfacinhas também devem sentir o mesmo. Eu não ia com a minha avó ao Chiado nem fazer compras para Campo de Ourique. Não brinquei no Jardim da Estrela nem fui lanchar à Versalhes. Mas comprava sapatos na Heidi na Senhora da Luz, ia ao Morgado comprar presentes de Natal e uma viagem até à baixa para ir ao Bazar Paris era um dos melhores presentes que me podiam dar! Ia ver filmes ao Pedro Cem e ao Nun’Alvares. A missa de Domingo era em Cristo Rei ou nas Carmelitas.
Comprava tigelinhas de mousse na Minhotinha (e fofinhos e quadrados de chocolate!) e apanhava o 78 para a escola. Comprava flores no Mercado da Foz e cigarros para a minha mãe no Ferreira. Tomava café na Juquinha e comia croissants na Doce Mar. E entrava na porta do lado para levar picas do Enf João.
Ao Domingo almoçávamos na Varanda do Sol e comíamos Natas do Céu à sobremesa. Brincávamos nas rochas da Praia da Luz enquanto os pais tomavam café e subi vezes sem conta a estátua do Homem do Leme. Comia crepes e gelados na La Copa e revelava as fotografias na loja ao lado no Centro Comercial da Foz. Nunca entrei no Castelo do Queijo mas ia ao Sá da Bandeira ver peças infantis. Construía espantalhos em Serralves com a escola e ia ao primeiro Continente de todos fazer compras com a minha mãe.
Pendurava a roupa em cruzetas e usava meias calças quando estava frio. Ao Sábado íamos buscar tripas à Cufra ou à Concha d’Ouro e comia lanches na Bacelar! O chantilly era da Quinta do Paço e trazíamos um eclair para o caminho.
A água do banho saía do cilindro e os ovos estrelados eram feitos na sertã! Chamávamos o picheleiro quando os canos entupiam e comíamos bijous. Para o arroz, a minha empregada fazia um estrugido e na sopa punha-se penca! Passei a minha infância de repas e tirava catotas do nariz. Usava um aguça para afiar os lápis e uma pasta pendurada nas costas. Quando larguei as fraldas, mijava no pote e deve ter sido nessa altura que fui para o Centrinho (em Nevogilde). E se brincava na terra e me sujava, ficava toda badalhoca!
Os azeiteiros usavam palitos no canto da boca e iam passear para a avenida ao Domingo. E quando jogava o Boavista, não se conseguia estacionar em minha casa. O Pedro Begonha usava T-shirt preta fosse Verão ou Inverno e o Daniel era um anão que andava sempre por ali.
O leiteiro, o peixeiro e o padeiro deixavam os sacos na porta de casa e a minha avó obrigava-me a dar um beijinho à senhora que vendia couves num carrinho de mão. (Ela tinha barba, 4 verrugas e não tinha dentes!!).
Os gunas andavam sempre pendurados no eléctrico e tínhamos de fugir deles quando nos atiravam pedras. Festejávamos o São João com alhos e martelos e em Agosto íamos à procissão do São Bartolomeu.
Íamos ao Augusto Leite comprar bicos de pato e ao Ténis comer filetes com salada russa. As iscas eram de bacalhau e os totós eram uns lorpas.
As empregadas tratavam-nos por “menina” dos 0 aos 88 anos e íamos à Brasília comprar roupa na Cenoura. (No Porto)
Amo Lisboa de paixão! Cada vez mais!!! E não! Não andei no Pedro Nunes nem ia às Amoreiras fazer compras.
Mas tenho muito orgulho em ter este sangue nortenho e murcão! Em dizer carago à boca cheia, em chamarem-me gaja sem ficar ofendida ou largar um foda-se quando me trilho numa gaveta. Ser do Fêquêpê é uma questão de religião e ser Tripeiro é um orgulho!!

Por Kiki do Familia 3 e 1/2

http://uptokids.pt/cronicas/cresci-no-porto-na-decada-de-80/

Não, a minha viagem ao Brasil ainda não acabou … mas preciso de pensar nessa minha vida e na vida que quero para mim … entretanto vou me encontrando por outras paragens que, na verdade, também são as minhas!

Eu não cresci na Foz como a Kiki.

Cresci na Baixa … comprava pão na Padouro, ao lado do Bolhão, onde a minha mãe encomendava as frutas e hortaliças, mais acima, vestia-me na Nelma, da Rua Formosa, mesmo ao lado da mercearia do Sr. Fernando, vizinho da minha avó Micas que vivia por cima, no 3ºandar, gaveto com Santa Catarina onde ia comer rissois à Império, perdia-me com as novidades na Palladium e, de mão dada, com o meu pai admirava os mercedes em exposição naquela que é a Zara de hoje, ia ao pediatra Bianchi de Aguiar em Sá da Bandeira, para depois, mais abaixo, lanchar torradas de pão de forma, aparadas, com leite Ucal, no café Turista, visitava a minha tia-madrinha Lena na loja Chic Parisiense, em 31 de Janeiro, via filmes no Passos Manuel e, ao lado, comia pasteis de carne e bebia sumol de ananás, almoçava ao domingo na Mamuda, nos Poveiros, e na Cunha, à terça, na mesa redonda.

Mais tarde, na adolescência, refugiava-me na Torre dos Clérigos, depois de rarear o oxigénio na esforçada subida, e deixava-me estar a comer croissants de chocolate e a sonhar com o rapaz giro do liceu, que passava perto do meu colégio de freiras e só de meninas de bata branca, ou então com o meu Brasil, chorando a cantar a Bethânia que, de cor e salteado, me enchia o coração com versos melosos e tristes. Às vezes, ainda é assim hoje!

Mais havia a dizer, ah se havia, mas o essencial é eu sou do Porto, carago!

mh

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